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FGV: Câmbio deixa commodities mais caras e acelera IGP-10 de setembro

O câmbio teve papel decisivo na aceleração da taxa do Índice Geral de Preços – 10 (IGP-10) entre agosto e setembro, de 0,51% para 1,20%, informou André Braz, economista da Fundação Getulio Vargas (FGV). Ao falar sobre a taxa maior do indicador, ele explicou que a desvalorização do real frente à moeda americana acabou por puxar para cima preço de commodities no exterior, com impacto nos preços do mercado doméstico.

Isso, na prática, fortaleceu a inflação atacadista, apurada pelo Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA), que representa 60% do índice e que passou de 0,64% para 1,76% de agosto para setembro. Como não há sinais de perda de fôlego do dólar em alta, a perspectiva é que os Índices Gerais de Preços (IGPs) comecem a se aproximar da faixa de 1% ainda este mês, alertou ele.

A inflação de materiais para manufatura, usado para mensurar impacto do câmbio na inflação atacadista, devido à grande presença de commodities e importados, subiu de 0,6% para 1,27%, informou ele.

Entre as commodities, o impacto do dólar em alta atingiu tanto as de origem agropecuária quanto mineral. É o caso das acelerações de preços, e fim de deflação, observadas entre agosto e setembro em minério de ferro (de 0,27% para 10,15%); soja em grão (3,59% para 3,82%); e milho em grão (de -3,01% para 8,43%). Todas as três commodities têm peso expressivo no cálculo do IPA, respectivamente de 4,95%; de 5,84%; e de 2,32%.

“Quando nossa moeda enfraquece, pagamos caro por commodity, mesmo que tenhamos todas elas abundantes aqui no Brasil, se o preço é cotado a moeda internacional”, resumiu ele.

Outro produto que deve começar a subir por conta do dólar é o trigo, acrescentou o técnico. Atualmente, a deflação no produto se aprofundou (-0,28% para -1,70%), mas como o país não produz tudo que consome, e parte da demanda é importada, a recente desvalorização cambial também vai afetar o preço do item em breve.

Esses aumentos acendem sinal de alerta para possíveis aumentos de preço nos alimentos do varejo nas próximas apurações dos IGPs, notou Braz. Isso porque todos contam com cadeia de derivados expressiva em alimentação.

Por enquanto, a inflação dos alimentos está comportada, em 0,01% no IGP-10 anunciado hoje - o que ajudou na desaceleração da taxa do Índice de Preços ao Consumidor (IPC), de 0,14% para 0,08%. Mas, em agosto, os preços nessa classe de despesa caíam 0,37%, alertou o especialista.

Braz comentou que o atual movimento de dólar em alta bem como a permanência em patamar elevado tem surpreendido o mercado. Ele citou vários fatores que justificam o cenário, como período eleitoral, quando a moeda brasileira sempre mostra sinais de desvalorização; guerra comercial entre Estados Unidos e China, e aumento de juros americanos.

Mas, observou que, nesse caso, o que mais chama atenção é a continuidade deste fenômeno. Ele frisou que, quanto mais tempo o dólar se manter em patamar acima de R$ 4,10, mais o câmbio terá força para influenciar para cima a inflação. “O câmbio nesse patamar começa a ‘arrastar’ todos os preços”, admitiu.

Além disso, a surpresa com a manutenção do dólar em alta veio em um cenário em que o atacado tem que lidar com os recentes aumentos de combustíveis nas refinarias pela Petrobras, acrescentou. No atacado, a inflação de combustíveis para consumo saltou de 1,38% para 3,40%, com acelerações de preços em gasolina (1,36% para 4,86%) e diesel (estabilidade para 4,63%).

O técnico comentou que há uma chance de taxa de câmbio menor após definição do pleito presidencial, no fim de outubro, pois isso retiraria a incerteza eleitoral como influência a desvalorizar o Real. Mas observou que, até lá, é possível que os IGPs continuem em alta, pressionados por commodities mais caras, influenciadas por dólar em alta, reconheceu.

(Valor) (Alessandra Saraiva)



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