Segunda-feira, 18 de Junho de 2018
Análise

Sequência de crises leva avicultura do país do céu ao inferno em pouco tempo
São Paulo, SP, 12 de Junho de 2018 - Há três anos o Brasil vivia o auge da avicultura. A produção do setor superava 13 milhões de toneladas, e o país, o líder mundial em exportações, assumia a segunda posição na produção mundial, desbancando a China.

O Brasil iria, porém, do céu ao inferno em pouco tempo. Um dos poucos no mundo a não registrar problemas de sanidade animal, o que ocorreu com seus concorrentes diretos, o país viria a enfrentar vários problemas internos.

O próprio setor começava a colocar barreiras na caminhada de sucesso que vinha imprimindo nos anos recentes. Foram percalços que poderiam ser evitados.

Um dos primeiros tropeços foi em 2016, quando a safrinha, a principal safra de milho do país, quebrou em 25%. A oferta de milho no mercado nacional, que tinha sido de 97 milhões de toneladas em 2015, recuou para 80 milhões no ano seguinte.

Sem uma programação de estoques e contratos de compra, as empresas do setor foram obrigadas a pagar, em média, R$ 54 pela saca de milho em junho de 2016. Algumas, dependendo da região, chegaram a pagar R$ 70.

O resultado foi um rombo nos custos de produção. Um ano depois, a saca de milho recuava para R$ 26.

Ainda sem se recuperar da pressão dos custos do milho, as empresas do setor foram seriamente afetadas pela Operação Carne Fraca de 2017.

Como consequência, boa parte do mercado externo se fecharia ao produto brasileiro. Enquanto o mercado externo encurtava, o interno também diminuía, devido à recessão.

O setor ainda se recuperava dos baques anteriores quando veio a segunda fase da Operação Carne Fraca, que expunha práticas de produção nada confiáveis por parte de algumas empresas.

Em vista de sanções de países importadores, o governo impôs uma autossuspensão a alguns frigoríficos. Na sequência, foi a própria União Europeia, responsável pela compra de 10% de nossas exportações, que colocou barreiras ao produto brasileiro.

O resultado foi que a Tailândia, pela primeira vez, desbancou a liderança brasileira no bloco europeu, assumindo o posto de maior exportador para a União Europeia.

Tradicional exportador para o Oriente Médio, o país começou a ter problemas também com os importadores daquela região. A Arábia Saudita, que fica com 14% das exportações brasileiras, exigiu mudanças no sistema de abate.

Por uma questão religiosa, os árabes não querem que o frango receba um choque antes de ser abatido.

Os Emirados Árabes Unidos, que importam 7% da carne brasileira colocada no mercado externo, seguiram a Arábia Saudita.

As discussões ainda persistem e, provavelmente, vão trazer mais custos às empresas.

Ainda sem respirar dos problemas anteriores, o setor foi gravemente afetado pela paralisação dos caminhoneiros. Sem receber insumos para uma continuidade da produção, a avicultura viu suas operações serem totalmente interrompidas e a morte de pelo menos 70 milhões de aves.

O estrago foi tão grande que os efeitos da parada deverão continuar no ritmo de produção e nas finanças das empresas pelos próximos meses.

Quando o setor buscava saídas para os estragos provocados pelo ato dos caminhoneiros, recebeu a notícia da taxação da China de 18,8% a 38,4% sobre o frango brasileiro.

Dificuldades comerciais na União Europeia, no Oriente Médio e na China, principais regiões importadores do produto brasileiro, podem tornar este um dos piores anos para o setor.

Com relação às barreiras colocadas pelos importadores, o Brasil pouco pode fazer, a não ser negociar muito. Os deslizes internos na produção e na fiscalização, porém, poderiam ser evitados.

A avicultura atingiu importância muito grande, e qualquer contratempo no setor afeta boa parte da economia. As exportações somaram 4,3 milhões de toneladas em 2017, com receita de US$ 7,2 bilhões.
(Folha de São Paulo) (Mauro Zafalon)
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