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Plano de Parente para BRF anima investidor
São Paulo, SP, 20 de Julho de 2018 - Há 20 dias, o clima entre os investidores era de aflição. Pedro Parente, saudado no mercado como o nome certo para resgatar a BRF, já havia assumido o cargo de CEO global. Mas as ações não esboçavam reação positiva na bolsa. Pelo contrário. Em meio ao temor com um eventual aumento de capital, o que diluiria os acionistas, os papéis da empresa atingiram em 28 de junho o pior nível desde dezembro de 2009.

Aos poucos, no entanto, o clima de apreensão vai ficando para trás. Na quarta-feira, Parente completou um mês como CEO global da BRF. Efetivamente, a virada de humor dos investidores teve início em 29 de junho, exatamente um dia após as ações da companhia baterem o piso deste ano.

Na noite daquela sexta-feira, Parente revelou ao mercado seu plano de emergência para resgatar a BRF. O temido aumento de capital estava descartado. Para recuperar as finanças da companhia brasileira e reduzir seu índice de endividamento, Parente anunciou que a BRF iria se desfazer das operações na Argentina, na Tailândia e na Europa. A venda dos ativos é a face mais importante da estratégia para angariar, ainda neste ano, R$ 5 bilhões.

Desde o anúncio do plano de resgate, o valor de mercado da dona das marcas Sadia e Perdigão aumentou R$ 4,5 bilhões. Ontem, a BRF valia R$ 19 bilhões na bolsa. Desde o dia 29 de junho, as ações da empresa subiram 29,89%, atingindo R$ 23,38. No mesmo período, o Ibovespa registrou valorização de 6,49%.

Apesar disso, os papéis ainda estão longe dos melhores dias, o que pode representar uma oportunidade para os investidores. Quando Parente foi eleito para presidir o conselho de administração da BRF, em 26 de abril, as ações eram negociadas a quase R$ 26. Na prática, os papéis da BRF ainda estão 9,97% abaixo do valor - já depreciado - registrado quando o ex-presidente da Petrobras chegou à empresa para encerrar a 'era' Abilio Diniz.

Para os analistas da corretora do Bradesco, o movimento de valorização da BRF está apenas no início. Em relatório divulgado na terça-feira, o banco atribuiu o rating 'outperform' para as ações da companhia, o equivalente a recomendar a compra dos papéis. O preço-alvo do Bradesco BBI para as ações da BRF no fim de 2019 é R$ 35,00, o que representa um potencial de alta de mais de 50%.

A avaliação dos analistas Leandro Fontanesi, João Pedro Soares e Rafael Sommer, do Bradesco, é que o plano de emergência anunciado pela BRF é factível neste ano. Além disso, os analistas argumentaram que a empresa de alimentos terá o caixa necessário para amortizar as dívidas que vencem até 2022 mesmo se tudo der errado em 2019. Outros ativos, como a controlada turca Banvit, poderiam ser vendidos pela BRF.

Pelas estimativas do Bradesco, a BRF conseguirá obter cerca de R$ 2 bilhões com a venda de suas operações na Europa, na Argentina e na Tailândia. Outros R$ 2 bilhões seriam obtidos com a securitização de recebíveis e a venda de ativos não operacionais (imóveis, florestas e as participações minoritárias na Minerva Foods e na Cofco Meat). Por fim, o Bradesco também calculou que a empresa poderá economizar R$ 1 bilhão com a redução dos estoques, perfazendo os R$ 5 bilhões do plano anunciado.

Embora o relatório do Bradesco enfatize a capacidade de recuperação da BRF, a estimativa de R$ 2 bilhões que o banco prevê que a empresa obterá com a venda dos ativos na Europa, na Tailândia e na Argentina representa uma perda expressiva se comparada ao montante que a BRF investiu para comprar esses ativos. Pelos cálculos do Bradesco BBI, foram US$ 931 milhões (o equivalente a R$ 3,5 bilhões).

A estimativa do Bradesco é também muito inferior à que o BTG Pactual fez no início de julho. Em relatório assinado pelos analistas Thiago Duarte e Vito Ferreira, o BTG avaliou que a BRF poderia obter US$ 935 milhões (o equivalente a R$ 3,5 bilhoes, considerando o dólar a R$ 3,75) com a venda dos ativos na Argentina, na Tailândia e na Europa. O banco também estimou que US$ 133 milhões poderiam ser obtidos pela BRF com a venda dos ativos não operacionais (florestas e ativos imobiliários).

Se de fato vender os ativos pelos R$ 2 bilhões projetados pelo Bradesco - os analistas chegaram a esse valor considerando o múltiplo médios das vendas de ativos feitas por Marfrig e JBS para reduzir dívidas -, a BRF terá perdido R$ 1,5 bilhão, ou 43%, em relação ao investimento inicial. Os ativos na Argentina, na Europa e na Tailândia foram comprados pela BRF ente 2011 e 2016.

Na avaliação do Bradesco, os ativos que a BRF colocou à venda terão compradores. Na Argentina, os ativos fariam sentido para as argentinas Molinos e Paladini e mesmo para a brasileira Marfrig, segundo os três analistas do Bradesco.

Executivos que conhecem o negócio de carnes na Argentina, porém, discordam dessa avaliação. Em meio à crise econômica no país sul-americano, a venda dos ativos poderá se mostrar uma tarefa mais difícil, afirmaram dois executivos do segmento ao Valor.

Além disso, a Marfrig dificilmente fará uma oferta pelo ativos de aves, suínos e alimentos industrializados da BRF na Argentina, segundo fontes próximas. O foco da Marfrig, que está no processo final para a venda da subsidiária americana Keystone, é a produção de carne bovina. Em tese, a Marfrig poderia se interessar apenas pela unidade de produção de hambúrguer bovino da BRF na Argentina.

Para os ativos na Tailândia, onde a BRF produz carne de frango, mais interessados deverão aparecer, avaliou um ex-executivo da companhia. "Com apenas três ligações, é possível vender a operação da Tailândia", acrescentou uma fonte próxima à BRF. Para os analistas do Bradesco, o negócio na Tailândia poderia atrair o interesse da brasileira JBS e da japonesa NH Foods.

No caso dos ativos na Europa, que inclui a produção de alimentos processados na Áustria e na Holanda e estrutura de distribuição, a JBS e a britânica Cranswick poderiam se interessar, conforme a análise da corretora do Bradesco.

Na segunda-feira, a BRF anunciou avanços no plano para a venda dos ativos. A companhia contratou o banco Morgan Stanley para assessorá-la na venda das operações na Europa e na Tailândia. Para vender os ativos na Argentina, contratou os bancos Bradesco BBI e Itaú BBA.

(Valor) (Luiz Henrique Mendes)
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