Domingo, 25 de Agosto de 2019
Produção

No jeitinho mineiro de criar frango, a briga contra a crise é “mano a mano”
Pará de Minas e Belo Horizonte, MG, 23 de Julho de 2018 - Embargo europeu, taxação chinesa, tabelamento de fretes. As notícias no primeiro semestre de 2018 não foram positivas para a avicultura brasileira. Ao longo da Expedição Avicultura, que já rodou 15 mil quilômetros nos seis maiores estados produtores e exportadores desta proteína, o setor está aflito. E em Minas Gerais não é diferente.

Quinto colocado no ranking nacional de produção de frango, Minas Gerais tem uma característica diferente, a avicultura é mais independente, enquanto nos outros estados, principalmente da região Sul, o cooperativismo e as integrações têm mais força. No sistema independente, o avicultor é responsável por todo o processo de produção do frango, da compra de insumos até o envio para o abate.

É o caso Wayne Franco, de Pará de Minas, região centro-oeste de Minas Gerais, que há 27 anos lida com avicultura. Com capacidade para alojar 40 mil aves por ciclo, ele conta que os primeiros meses deste ano não foram nada animadores. “Os custos não estão baixos e o frango estava sem preço”, conta. “A situação melhorou um pouco depois da greve, quando as cotações subiram”, complementa.

Para Franco, o problema do setor é político, não econômico. “Falta vontade política para equilibrar o setor produtivo. Existe competência, capacidade técnica, produto com qualidade, mas falta ação do governo. Falta comprometimento com a avicultura”, protesta. No entanto, ele é otimista quanto a 2018. “Com o desabastecimento provocado pela greve e que pode ser provado pela tabela do frete, há espaço para que as cotações aumentem um pouco e que possamos recuperar o primeiro semestre. Empresas grandes, como a BRF, também estão ajustando a produção. O benefício vai ser maior”.

Em Pará de Minas, a Cooperativa de Granjeiros do Oeste de Minas Gerais (Cogran), que abate 46 mil frangos por dia, também sofreu os impactos das sucessivas crises que atingiram o setor. Embora não exporte, o frigorífico sentiu os preços dos produtos caírem com o excesso de oferta no mercado nacional. “É um ano que corremos atrás para empatar, mas provavelmente será de uma pequena perda”, diz o gerente de Unidade e Negócios da Cogran, Donizette Ferreira do Couto.

Diferente de uma cooperativa tradicional, em que os cooperados trabalham apenas como terminadores e são remunerados com base na taxa de conversão animal, na Cogran cada um dos associados é livre para comprar os pintainhos e os insumos onde quiserem. O mesmo também acontece com o produto, o excedente da cota pode ser vendido para qualquer outro frigorífico.

Segundo Donizette Couto, por Minas Gerais ter essa característica de uma produção mais independente, o prejuízo é mais pulverizado, não fica concentrado apenas em uma empresa ou região, como no caso da BRF e Aurora Alimentos. “São muitos produtores e cada um com uma realidade diferente. A sobrevivência na atividade neste ano vai depender da capacidade de endividamento de cada produtor, do modelo de gestão”, explica.

O presidente da Cogran, Antônio de Melo Silva, conta que o frigorífico ficou parado três dias durante a greve dos caminhoneiros, mas que não houve redução de abates e nem demissões. “Nós diminuímos nosso alojamento nas granjas em 10%”, conta. “Vamos ver como vai ficar a situação com questão do frete”, diz. Além do frigorífico, a Cogran também tem uma fábrica de premix, mistura de vitaminas e alguns aminoácidos, utilizado na fabricação da ração. “O problema é dinheiro. A crise econômica não terminou. Aqui em Minas Gerais, os funcionários públicos estão com os salários atrasados, a economia não está girando. Mas se a economia melhorar, o setor retoma”, complementa Donizette Couto.

Diretora executiva da Associação dos Avicultores de Minas Gerais (Avimig), Marília Martha Ferreira acredita que seja um dos piores anos para o setor. “Diferente do Paraná e de Santa Catarina, estados geograficamente menores, onde a atividade é muito concentrada, em Minas Gerais a avicultura está muito espalhada. Lá, se dói para um, dói para o outro. Aqui, cada produtor vive uma realidade, depende muito da região”, explica. “Alguns sofreram com a greve de caminhões, outros nem tanto”, exemplifica.

Médica-veterinária, Marília Ferreira, que há 50 anos trabalha com a avicultura mineira, conta que avicultura só não cresceu mais no estado por causa de outras culturas, como leite e gado de corte. “É uma questão de tradição. Nós temos aqui grandes produtores que têm fazendas centenárias. A avicultura era uma coisa para pequenos produtores. Sempre houve uma ideia no estado de que terra boa era para cana, café, boi. Há 50 anos, ninguém dava valor para o tema. Olha o quanto evoluiu. É impressionante”.
(Gazeta do Povo) (Gabriel Azevedo)
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