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Câmbio impulsiona vendas de safras futuras no Brasil, exceto para quem deve em dólar
São Paulo, SP, 14 de Setembro de 2018 - As vendas antecipadas de soja e milho da safra que vai ser colhida somente no ano que vem no Brasil, que estavam lentas em meio a preocupações com custos adicionais da tabela do frete, ganharam ritmo com dólar superando 4 reais ao final de agosto, segundo especialistas.

Com o câmbio em patamares históricos diante de preocupações eleitorais, o preço dessas commodities se fortalece em reais, incentivando aqueles produtores que conseguem negociar suas colheitas na moeda brasileira, um fator importante para investimentos na próxima safra 2018/19.

"As negociações estão fluindo muito melhor. A tendência é que persista desta maneira, até por conta do movimento cambial. As tradings acabam sendo mais atuantes nas compras...", disse o analista Fernando Iglesias, da consultoria Safras & Mercado.

Ele ponderou que a soja brasileira está "muito competitiva", com a fraqueza do real, e que as vendas de grãos poderiam estar mais avançadas não fosse a tabela do frete.

Com o câmbio e a forte demanda da China pela safra brasileira, os prêmios elevados nos portos pelo produto nacional estão compensando uma queda no mercado internacional, que tem oscilado perto dos menores níveis em cerca de dez anos.

Nas contas da Safras, os produtores do país comercializaram 22,8 por cento da produção futura de soja até 6 setembro, o dobro do registrado no mesmo período do ano passado, mas ainda assim abaixo da média histórica para a época, de 25,8 por cento.

A moeda norte-americana mais forte também ajuda a compensar parte dos custos maiores com o tabelamento do transporte rodoviário das mercadorias, uma vez que o frete é cotado em reais, lembrou o superintendente do Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea), Daniel Latorraca.

"Pouca coisa tinha rodado (negócios futuros) e tem que começar a rodar, a fórceps. Não é o mercado ideal (com a tabela de frete)... Mas quando o mercado começa a ter posições, com estoque baixo de milho, não tem outra alternativa a não ser negociar...", disse ele, ao explicar como a comercialização acabou saindo de uma "inércia".

Ele destacou especialmente o avanço nos negócios de milho da próxima safra. Dados do Imea divulgados nesta semana apontaram que a comercialização do cereal da safra 2018/19 avançou cerca de 10 pontos percentuais em apenas um mês, para 24 por cento de uma safra projetada em 27,4 milhões de toneladas.

As vendas da safra futura de soja de Mato Grosso cresceram mais de 6 pontos ante agosto, para quase 30 por cento, e estão um pouco acima da média histórica para o período, segundo o Imea, que também aponta negócios caminhando para a safra velha, com a China "limpando o estoque brasileiro" da oleaginosa, uma vez que o país asiático em guerra comercial com os EUA aplica uma tarifa ao produto norte-americano.

NEGÓCIOS EM REAIS

Já os produtores que têm dívida em dólar, muitos dos quais plantam em grandes áreas e usam a moeda norte-americana nos negócios, estão tirando menos proveito da situação, o que pode até limitar o avanço de plantio brasileiro, que deve começar já em setembro em algumas regiões.

Na avaliação de Fernando Muraro, da consultoria AgRural, o salto na comercialização antecipada de milho 2018/19, maior até que o avanço nas vendas de soja de Mato Grosso, evidencia que o câmbio está ajudando mais aqueles produtores que comercializam em reais, e não em dólares --os negócios do cereal, em geral, são feitos na moeda brasileira.

Ele lembrou que uma parte importante dos produtores tem dívidas em dólar --uma vez que empréstimos na moeda norte-americana têm custos mais baixos--, um aspecto negativo do enfraquecimento do real, que em geral beneficia o setor agrícola.

"Para quem faz negócio em reais está lindo, maravilhoso. Em dólares, está terrível. Um pé no forno e outro na geladeira...", afirmou Muraro.

Ele lembrou que os preços em dólares da soja em Mato Grosso, maior produtor de grãos do Brasil, estão bem próximos do ponto de equilíbrio ("break even") para aqueles produtores que são proprietários das terras, mas destacou que aqueles que são arrendatários já estão no negativo, o que sinaliza um limite para expansão de área plantada.

A situação é semelhante em outras áreas, como o oeste da Bahia, onde há grandes áreas disponíveis para novas lavouras.

"Ele vai precisar (em dólares) de muito mais soja para pagar suas contas do que na safra 2017/18", ressaltou o analista.

Segundo Muraro, "em reais, o Brasil vai muito bem, obrigado".

Mas a grande preocupação é com o produtor que faz as contas em dólar, comentou ele, estimando que nas principais regiões produtoras entre 25 e 40 por cento da área plantada é financiada na moeda dos EUA --quanto mais nova a área, maior o endividamento.
(Reuters) (Roberto Samora)
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