Segunda-feira, 12 de Novembro de 2018
Ciência e Tecnologia

O frigorífico que produz carne de frango sem matar nenhuma ave
Rio de janeiro, 18 de Outubro de 2018 - Há uma crise iminente diante do crescente apetite por carne no mundo. Será que um frango que cisca em uma fazenda em São Francisco pode ser a solução?
Em 1931, Winston Churchill previu que um dia a raça humana "escaparia do absurdo de criar uma galinha inteira para comer o peito ou a asa, produzindo essas partes separadamente".
Oitenta e sete anos depois, esse dia chegou, como descobrimos na Just, empresa de alimentos em São Francisco, nos EUA, onde provamos nuggets de frango fabricados a partir das células de uma pena de galinha.
O frango - que tinha gosto de frango - ainda estava vivo, supostamente ciscando em uma fazenda não muito longe do laboratório.
Essa carne não deve ser confundida com os hambúrgueres vegetarianos à base de verduras e legumes e outros produtos substitutos de carne que estão ganhando popularidade nos supermercados.
Não, trata-se de carne real fabricada a partir de células animais. Elas são chamadas de diversas formas: carne sintética, in vitro, cultivada em laboratório ou até mesmo "limpa".
São necessários cerca de dois dias para produzir um nugget de frango em um pequeno biorreator, usando uma proteína para estimular as células a se multiplicarem, algum tipo de suporte para dar estrutura ao produto e um meio de cultura - ou desenvolvimento - para alimentar a carne conforme ela se desenvolve.
O resultado ainda não está disponível comercialmente em nenhum lugar do planeta, mas o presidente-executivo da Just, Josh Tetrick, diz que estará no cardápio em alguns restaurantes até o fim deste ano.
"Nós fazemos coisas como ovos, sorvete ou manteiga de plantas e fazemos carne apenas a partir de carne. Você simplesmente não precisa matar o animal", explica Tetrick.
Nós provamos e os resultados foram impressionantes. A pele era crocante e a carne, saborosa, embora a textura interna fosse um pouco mais macia do que a de um nugget do McDonald's ou do KFC, por exemplo.
Tetrick e outros empresários que trabalham com "carne celular" dizem que querem impedir o abate de animais e proteger o meio ambiente da degradação da pecuária intensiva industrial.
Eles afirmam estar resolvendo o problema de como alimentar a crescente população sem destruir o planeta, ressaltando que sua carne não é geneticamente modificada e não requer antibióticos para crescer.
A Organização das Nações Unidas (ONU) diz que a criação de animais para a alimentação humana é uma das principais causas do aquecimento global e da poluição do ar e da água. Mesmo que a indústria pecuária convencional se esforce para se tornar mais eficiente e sustentável, muitos duvidam que será capaz de acompanhar o crescente apetite global por proteína.
Abatemos 70 bilhões de animais por ano para alimentar sete bilhões de pessoas, destaca Uma Valeti, cardiologista que fundou a Memphis Meats, empresa de carnes fabricadas a partir de células, na Califórnia.
Segundo ele, a demanda global por carne está dobrando, à medida que mais pessoas saem da pobreza. Nesse ritmo, acrescenta, a humanidade não conseguirá criar gado e frango suficientes para saciar o apetite de nove bilhões de pessoas até 2050.
"Assim, podemos literalmente cultivar carne vermelha, aves ou frutos do mar diretamente dessas células animais", diz Valeti.
Muitos americanos afirmam que estão comendo menos carne, mas dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos sugerem que o consumidor médio ainda vai ingerir mais de 100 quilos de carne vermelha e frango neste ano - cerca de 20 quilos a mais do que consumiam nos anos 1970.
O cientista holandês Mark Post é um dos pioneiros da agricultura celular - seu primeiro hambúrguer produzido em laboratório, em 2013, custou US$ 300 mil.
Nenhuma empresa ampliou ainda a produção para servir comercialmente um hambúrguer feito a partir de células, mas Post estima que, se começasse a produzir seus hambúrgueres em massa, poderia reduzir o custo de produção para cerca de US$ 10 cada.
"É claro que ainda é muito alto", avalia.
Se a Just conseguir fabricar nuggets de frango suficientes para vender neste ano, é improvável que seja em um restaurante americano, pois o governo dos EUA ainda está decidindo como proceder.
A maioria dos alimentos no país é regulada pela Administração de Alimentos e Medicamentos (FDA, na sigla em inglês). Mas alguns - principalmente a carne produzida convencionalmente - são controlados pelo Departamento de Agricultura (USDA, na sigla em inglês).
Então, se você compra uma pizza congelada nos EUA, o USDA é responsável pela de pepperoni e o FDA, pela de queijo.
"Há vários países na Ásia e na Europa com os quais estamos conversando", diz Tetrick.
Segundo ele, "há uma falta de clareza" em relação à regulamentação nos EUA, enquanto o USDA e o FDA realizam audiências públicas sobre o tema.
"Acho que os países querem assumir essa liderança. Seja pela escassez de alimentos, por questões de sustentabilidade ou apenas pelo desejo de construir uma economia inteiramente nova, eles querem assumir essa liderança", disse Tetrick.
O objetivo final é levar a "carne celular" do laboratório para grandes fábricas.
Existem atualmente dezenas de empresas que atuam nessa área e estão atraindo investidores de capital de risco do Vale do Silício e de outras regiões. Bilionários como Bill Gates e Richard Branson estão entre aqueles que investiram dinheiro na tecnologia.
O produto também conta com um benfeitor mais surpreendente: a Tyson Foods, que investiu uma quantia não revelada na Memphis Meats.
A Tyson é a maior processadora de carnes dos EUA - são cerca de 424 mil suínos, 130 mil vacas e 35 milhões de frangos processados por semana.
Então, por que a companhia estaria investindo em "carne celular"?
Ela decidiu "deixar de ser uma empresa de carne para ser uma empresa de proteína", diz Tom Mastrobuoni, diretor financeiro da Tyson Ventures, braço de capital de risco da Tyson.
"Tomamos a decisão consciente de que seremos a maior empresa de proteínas", acrescentou.
A tecnologia de ponta do Vale do Silício pode ser sinônimo de um espírito liberal e empreendedor, mas os EUA ainda são um país onde a tradição fala alto.
A Associação dos Pecuaristas tem um lobby forte e não há nenhum símbolo mais venerado ou romantizado na história do país do que a figura do caubói.
E, assim, os fazendeiros do Meio-Oeste estão entrando no debate sobre como este novo produto será comercializado - como carne limpa, carne celular, carne livre de abate, proteína ética ou apenas carne?
Em seu rancho em Ozarks, região montanhosa que se estende do Missouri ao Arkansas, Kalena e Billy Bruce alimentam seu rebanho de gado Black Angus, com a ajuda da filha de quatro anos, Willa.
"Acho que precisa ser rotulado propriamente - como proteína produzida em laboratório", opina Billy Bruce.
"Quando penso em carne, penso no que está atrás de nós, um animal vivo que respira."
O estado do Missouri concorda. A pedido dos agricultores, os legisladores determinaram que o rótulo de carne só pode ser aplicado ao produto do gado. É um indicio de que o rompimento com a agricultura tradicional pode estar a caminho.
"Do ponto de vista da transparência para os consumidores, para que saibam o que estão comprando e dando para suas famílias comerem, achamos que precisa ser chamado de algo diferente", diz Kalena Bruce.
Lia Biondo, diretora de políticas de expansão da associação de pecuaristas dos EUA, com sede em Washington, diz que espera que a lei do Missouri possa ser reproduzida em outros Estados.
"Vamos deixar que essas empresas decidam como chamar seus produtos, desde que não chamem de carne", diz Biondo.
Mas, em todo caso, será que alguém vai realmente comer esses produtos?
Frequentadores do Lamberts, restaurante tradicional do Meio-Oeste em Ozark, no Missouri, terão que ser convencidos.
"A carne deve ser criada em uma fazenda, nos campos", declara Jerry Kimrey, trabalhador da construção civil de Lebanon, no Missouri.
A professora Ashley Pospisil, também de Lebanon, diz que prefere não comer carne à base de células.
"Eu gosto de saber de onde a carne veio, que é natural e não foi processada em laboratório", diz ela.
Linda Hilburn, que está comendo um bife antes de ir para casa em Guthrie, em Oklahoma, concorda:
"Tem algo na criação do homem que me assusta. Só causamos destruição aqui. Eu meio que gosto da ideia da criação de Deus."
Enquanto Hilburn está longe de ser a única a ter um pé atrás com a "comida Frankenstein", como os críticos a rotularam, Josh Tetrick insiste que a carne feita a partir de células é totalmente livre das muitas doenças animais que afetam a produção tradicional de carne.
E ele está apostando na experiência humana a favor do progresso.
"No fim das contas, se você está falando do avanço do picador de gelo para a geladeira ou da matança de baleias para usar seu óleo em lamparinas até as lâmpadas incandescentes... mesmo que as pessoas associassem as lâmpadas ao diabo... a humanidade conseguiu abraçar algo novo."
"Isso sempre acontece e, se eu tivesse que apostar, é o que vai acontecer em relação a isso também."
(G1/BBC) (Assessoria de Imprensa)
Imprimir esta notícia...
|
Deixe aqui sua opinião, insira seus comentários.
O espaço também é seu!

Segunda-Feira, 12/11
MILHO/CEPEA: depois de cair por quase três meses, preço sobe em algumas regiões (10:27)
SOJA/CEPEA: demanda internacional incerta reduz prêmio no Brasil e valores recuam (10:25)
Diretório Acadêmico de Medicina Veterinária da IMED homenageia Francisco Sérgio Turra (10:20)
Languiru e Dália Alimentos assinam acordo de intenções (09:03)
'Futuro governo não pode fechar portas para o agronegócio' (08:15)
Soja opera em queda na Bolsa de Chicago nesta 2ª feira e corrige altas da última semana (08:00)
Exportadores de carne temem mudança de embaixada para Jerusalém (07:36)
Sexta-Feira, 09/11
FRANGO/CEPEA: preço da carne inicia novembro em alta (09:41)
OVOS/CEPEA: oferta diminui e preços voltam a subir (09:30)
MSD Saúde Animal é reconhecida como a melhor empresa para se trabalhar no segmento de saúde animal (09:22)
"Nunca prometi prazo para virar o jogo na BRF", diz Pedro Parente (09:20)
Agora, Tyson foca expansão no exterior (09:17)
Cobb-Vantress compartilha experiência em manejo de machos no Latin American Poultry & Nutrition Congress 2018 (08:07)
Brasil e EUA vão produzir menos soja, mas estoques são recordes (07:54)
Contratação de crédito rural até outubro soma R$ 64 bilhões (07:52)
Boi: melhora da oferta colabora para queda dos preços da arroba (07:49)
Milho: USDA reduz projeção para a safra dos EUA e mercado fecha 5ª com leves altas em Chicago (07:48)
USDA tem efeito limitado e soja fecha estável na Bolsa de Chicago nesta 5ª feira (07:46)
Quinta-Feira, 08/11
Wisium intensifica atuação na Região Sul (13:29)
SUÍNOS/CEPEA: início de mês e retomada das compras russas impulsionam preços (11:42)
BOI/CEPEA: apesar da pressão da indústria, indicador se sustenta (11:40)
China se torna o maior mercado para carne suína catarinense (09:45)
Grãos: Conab estima uma produção entre 233,7 e 238,3 milhões de toneladas (08:40)
Agronegócio elogia experiência de futura ministra, mas destaca desafios (08:17)
Boi Gordo: baixa volatilidade no mercado (08:10)
Exportações de carne de frango mantém alta em outubro (08:09)
Soja brasileira com boas perspectivas para 2019, mesmo se confirmado acordo entre China e EUA (08:00)
Quarta-Feira, 07/11
Tereza Cristina é anunciada como ministra da Agricultura de Bolsonaro (19:28)
JBS vai vender carne na China pela internet (08:32)
Acionistas da BRF aprovam extensão do mandato de Pedro Parente (07:46)
Presidente da ABPA é palestrante do II Congresso Internacional de Direito Agrário e do Agronegócio (07:30)
Carne bovina tem alta e pode colaborar com retomada de preço no mercado do boi (07:18)
Importações chinesas de soja vão cair 10%, diz USDA (07:10)
Soja fecha estável em Chicago e mantém mercado lento também no Brasil nesta 3ª feira (07:00)
Terça-Feira, 06/11
Chineses questionam Blairo sobre posições de Bolsonaro (13:40)
Palestra sobre os benefícios do ovo na Multivix e na Católica de Vitória (09:36)
DSM apresenta inovação e ciência aplicada em avicultura na conferência da PSA Latin American 2018 (08:30)
Cobb-Vantress realiza 7º Encontro Empresarial, em Puerto Madero (08:20)
Milho: demanda dá suporte e mercado consolida terceira valorização consecutiva em Chicago nesta 2ª (08:04)
Soja: sinalização de acordo entre China e EUA reduz pressão e Chicago testa leves altas nesta 3ª (08:00)
Guerra comercial de Trump custa caro para os EUA nas exportações de soja (07:50)
Egito cancela viagem de Aloysio Nunes e da comitiva brasileira (07:19)
China: exportação agropecuária tem entrave e oportunidade (07:18)
Copagril realiza 8ª Semana da Política da Qualidade e Segurança do Alimento (07:17)
Tocantins reúne representantes do setor de milho para falar sobre aflatoxina (07:16)