Segunda-feira, 12 de Novembro de 2018
Exportação

China: exportação agropecuária tem entrave e oportunidade
Pequim , 06 de Novembro de 2018 - A pauta brasileira de exportações agropecuárias para a China é bastante centrada na soja, mas ainda assim tem espaço para diferentes produtos e potencial de expansão. Mas também tem problemas a serem resolvidos. Enquanto o fluxo da venda de soja segue em alta, o Brasil tenta ampliar o mercado de carnes, por exemplo. Mas, é no segmento animal que hoje se concentram duas negociações para superar entraves chineses.

Estão entre os focos de trabalho da diplomacia do Brasil em Pequim a venda de miúdos de gado e o fim da sobretaxa ao frango. Atualmente, o Brasil vende as partes menos nobres do rebanho bovino, como miúdos, apenas para Hong Kong. Mas, de acordo com Hugo Peres, um dos responsáveis pela área do agronegócio brasileiro na embaixada brasileira em Pequim, questões sanitárias são o que ainda impedem o ingresso do produto em todo o continente. "Já exportamos para Hong Kong, mas para a China continental ainda não, porque não atualizaram o status sanitário do Brasil, referente a doença da vaca louca, pela qualificação da OIE (Organização Mundial de Saúde Animal). Estamos negociando para que aceitem essa qualificação, onde o Brasil tem o melhor status possível", explica Peres.

Enquanto avança na questão dos miúdos de gado, as tratativas para encerrar a sobretaxa ao frango brasileiro podem migrar para uma esfera maior. Desde o início do ano, a China decidiu sobretaxar o frango alegando dumping. Peres defende que a acusação de dumping é motivada por pressão de produtores de frango do gigante asiático e partem de uma premissa errada. A embaixada do Brasil alerta que o País poderá ingressar na Organização Mundial do Comércio (OMC) contra a cobrança extra à produção avícola brasileira. "O Brasil fornece 84% das importações de frango da China. E eles têm uma produção interna relevante e sofrem pressões dos produtores para proteger o seu mercado", avalia Peres.

O argumento de dumping estaria baseado em um cálculo errado, segundo Peres, porque leva em conta o preço a partir de um somatório de tudo que é vendido. E como o preço do pé de galinha, amplamente consumido na China é muito barato, já que no Brasil é descartado e no país asiático valorizado, isso colocaria o valor médio abaixo do real.

Peres ressalta, porém, que, apesar de a carne de frango e de gado serem produtos importantes, o Brasil ainda não tem nenhuma frente aberta no mercado de frutas. "O Brasil não exporta nenhuma fruta para cá, ao contrário de muitos outros países latinos. Estamos com negociação para começar a exportar melão", diz Peres.

No segmento de grãos, o diplomata avalia que há espaço para a venda de sorgo para alimentação animal, já que a China importa 90% do produto dos Estados Unidos. E com a guerra comercial, deverá mudar os fornecedores. Mas é a soja, claro, que segue despertando o grande apetite chinês.

Também atuante na área econômica da embaixada, Ricardo Andrade destaca que neste ano a oleaginosa brasileira expandiu significativamente sua presença no país asiático. "Neste ano, o Brasil já respondeu por 70% de toda a soja importada pela China. No ano passado, foram 51%", ressalta Andrade, que aponta este como sendo um reflexo da guerra comercial com os Estados Unidos.

O avanço do país asiático sobre a soja brasileira, no entanto, não se limita à compra de grãos, mas também a investimentos diretos no Brasil. A internacionalização das empresas chinesas em toda a cadeia produtiva da oleaginosa é tema do pesquisador brasileiro Tomaz Fares. Doutorando pela Universidade de Londres, ele está na China levantando dados sobre o setor:

"A minha ideia é entender os investimentos chineses no Brasil, em toda a cadeia da soja. Passando por empresas como a Cofco (empresa chinesa de beneficiamento de soja), portos, processamento, produção e aquisição de empresas", explica Fares.
(Jornal do Comércio) (Thiago Copetti)
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