Segunda-feira, 22 de Abril de 2019
Matérias-Primas

Produtores temem sobra de grãos
São Paulo, SP, 25 de Março de 2019 - Eventual acordo entre China e EUA colocando fim à guerra comercial já causa tensão no setor agrícola brasileiro. “E a preocupação é grande, não é pequena, não”, diz o diretor-geral da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec), Sergio Mendes.
O receio é que Pequim passe a priorizar os produtos agrícolas americanos em detrimento dos brasileiros. Desde a trégua anunciada pelos dois países em dezembro, as vendas de soja dos EUA para a China subiram.

Em 2018, o Brasil foi um dos maiores beneficiados pela guerra travada entre os dois países. O País exportou 82,8 milhões de toneladas de soja, alta de 21% ante 2017. “Os números de 2018 são completamente fora da curva. Vendemos sem concorrência e a guerra comercial foi preponderante”, explica Mendes.

A Anec estima exportar 70 milhões de toneladas neste ano, volume que pode diminuir se o acordo entre China e EUA for muito favorável aos americanos. Os EUA estão com estoque alto de soja e poderiam vender para a China já neste primeiro semestre, concorrendo com Brasil e Argentina – a safra dos países da América do Sul é no começo do ano, enquanto a americana é no segundo semestre.

Da soja exportada pelo Brasil, 82% foram para a China, quase dez pontos porcentuais a mais que em 2017. Segundo Mendes, como a China compra quase a totalidade da produção brasileira, o País não terá para onde destinar seus grãos caso os orientais reduzam suas importações.

O produtor Valdir Edemar Fries, de Itambé (PR), calcula que vai exportar 21% a menos neste ano. Ele ainda não estimou a perda em receita, mas acredita que superará esse porcentual. “Além de ter produzido menos por causa da estiagem, o acordo branco (informal) entre China e EUA já afeta a cotação. Há dez dias a soja estava a R$ 71 a saca. Hoje (quinta-feira, 14), não passa de R$ 67,50”. Na safra 2017/18, Fries conseguiu média de R$ 72,50 por saca.

A estiagem que afetou a produção de soja no Paraná, segundo maior produtor brasileiro, atingiu também as lavouras de Fries. A produtividade por hectare, que havia sido de 75 sacas, em média, na safra passada, caiu para 58,8. Ele conta que havia a possibilidade de
compensar parte da perda com preços melhores, o que não ocorreu. “Quando fiz as vendas no mercado futuro, em novembro, vendi apenas o necessário para cobrir os custos, pois achava que, em razão da guerra comercial, os preços iriam subir. Não foi uma boa aposta”.

O produtor Emílio Kenji Okamura, presidente da Cooperativa Agrícola de Capão Bonito (SP), teme pelo escoamento mais lento da soja para o porto. “Nossa cooperativa tem capacidade para 600 mil sacas e os silos estão lotados. Muitos não quiseram vender acreditando que a briga dos EUA com os chineses ia longe, mas Donald Trump amenizou e já tem soja de lá sendo levada para a China.”
“Quem vendeu antecipado conseguiu até R$ 80 a saca, mas muito produtor preferiu esperar e agora o preço oscila entre R$ 71 e R$ 72. Ninguém sabe como o mercado vai ficar nos próximos meses, o que torna difícil um planejamento”, diz Okamura.

Frango deve seguir em alta

Ao contrário do caso da soja, a possibilidade de o frango entrar na mesa de negociações de Pequim e Washington não tem causado apreensão no setor avícola brasileiro. Hoje, o frango americano é proibido na China e há indícios de que a liberação do produto possa ser usada como moeda de troca por Pequim.

O presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal, Francisco Turra, afirma que os EUA não têm muito excedente e é um grande consumidor da carne, o que dificultaria uma substituição significativa do produto brasileiro pelo americano. Ele destaca que a demanda chinesa vem crescendo e, portanto, o acordo entre os dois países não é visto como uma ameaça.

O mercado de frangos chinês foi aberto ao Brasil há apenas uma década e, no primeiro bimestre deste ano passou a ser o principal mercado para o País desse produto. A China ficou com 12,5% das exportações brasileiras de frango no período, enquanto a Arábia Saudita, antes a maior importadora, adquiriu 11,6%.
(O Estado de S.Paulo) (José Maria Tomazela e Luciana Dyniewicz)
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