Sábado, 20 de Abril de 2019
Mercado Externo

Um cataclismo sanitário jamais visto
Greeley, EUA, 11 de Abril de 2019 - Na entrada da frigorífico da JBS na pequena Greeley, no Estado americano do Colorado, os corredores que levam ao interior da indústria são decorados com quadros de bandeiras indicando os países para os quais a unidade, que abate 5 mil cabeças de gado diariamente, embarca cerca de 30% da produção.

Ao que tudo indica, a bandeira vermelha da China será cada vez mais relevante, não só em Greeley, mas nas quase 200 unidades da JBS nos quatro cantos do mundo. Com um faturamento de mais de R$ 180 bilhões por ano, a companhia brasileira julga estar em posição privilegiada para atender as necessidades de um país que passa por um cataclismo sanitário. Desde agosto passado, os chineses sacrificaram mais de 1 milhão de suínos infectados pelo vírus de peste africana.

"Nunca vi nada parecido do ponto de vista de potencial impacto em uma região tão relevante na produção de uma proteína", afirmou, em entrevista a jornalistas, o CEO da JBS USA, André Nogueira. A China é responsável por cerca de 50% do consumo global e, de acordo com os analistas do banco holandês Rabobank, a produção do país pode diminuir 20%.

A tendência é que a doença, que está se espalhando e já atingiu Vietnã, Tibete e África do Sul, movimente as placas tectônicas da indústria global de carnes, alterando o fluxo de comércio por pelo menos três anos, afirmou o CEO global da JBS, Gilberto Tomazoni.

O executivo da gigante de alimentos destacou que não apenas a JBS, mas todo o setor sentirá mudanças na demanda de carne bovina, suína e de frango. Em recente relatório, o Bank of America (BofA) avaliou que as brasileiras JBS e BRF são as mais bem posicionadas entre as empresas nacionais para enfrentar esse cenário de maior demanda. BRF e JBS são, respectivamente, as duas maiores agroindústrias de carne suína do país. Marfrig e Minerva, também listadas na bolsa, só produzem carne bovina.

Como não haverá oferta suficiente para abastecer a perda da produção chinesa de carne suína, as outras proteína serão beneficiadas, sustentaram os executivos da JBS. "A China vai importar mais as três proteínas para tentar suprir esse buraco", afirmou Nogueira, ressaltando que o número de casos da doença pode ser bem maior do que os já conhecidos.

O executivo da JBS USA ponderou que ainda é cedo para dimensionar o impacto do surto na China, mas demonstrou estar convencido de que a questão levará tempo para ser solucionada pelo governo chinês.

"Provavelmente, para que consiga erradicar essa doença, a China terá que mudar consideravelmente seu sistema de produção", acrescentou, lembrando que entre 40% e 50% do plantel chinês é criado no quintal. Entre especialistas, o consumo de restos de comida (lavagem de porco) foi associado à rápida contaminação. "Controlar essa doença dessa forma é praticamente impossível", afirmou Nogueira.

Diante do surto de peste suína africana, os preços da carne no mercado chinês já estão aumentando, mas ainda não é possível projetar o impacto das cotações mais altas sobre o consumo do país asiático, disse o executivo. Certo mesmo é que as importações da China crescerão. "Claramente a China já está se movimentado para importar mais. E isso nos impacta em diversos cenários", ressaltou o executivo da JBS.

Por ora, o benefício da demanda adicional da China deve ser indireto para a JBS e as demais indústrias dos Estados Unidos. Apesar de serem um dos maiores exportadores globais de carne suína, os americanos vendem, principalmente, para Japão, Coreia do Sul, México e Canadá. No caso da China, as vendas dos EUA também são prejudicadas pelas sobretarifas aplicadas por Pequim ao produto americano desde o ano passado, na esteira da guerra comercial deflagrada pelo presidente dos EUA, Donald Trump - no momento, Washington e Pequim negociam um acordo que poderá beneficiar as vendas de carne.

"Se a China importar direto, ela vai passar a ser um mercado relevante para os EUA. Já existe demanda hoje da China de comprar dos Estados Unidos mesmo com a tarifa de 60%, o que é um sinal de necessidade", afirmou ele. E, mesmo que isso não aconteça e as rusgas entre os dois países não se resolvam, a JBS ainda será beneficiada, ressaltou.

"Se isso não acontecer, não tem problema. O Brasil e a Europa vão exportar mais carne suína à China. E sendo o Velho Continente um importante competidor dos EUA, a Europa vai exportar menos para o Japão e Coreia, abrindo espaço para que esses países comprem mais dos Estados Unidos", projetou ele.

Conforme os dados do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), os americanos respondem por mais de 30% das exportações globais de carne suína; a União Europeia, por cerca de 35%; e o Brasil, por 8,4%.

Afora o benefício indireto para as exportações americanas de carne suína, a JBS se beneficiará diretamente nas exportações de carne bovina. De acordo com Nogueira, esse impacto positivo já está ocorrendo. Neste ano, a JBS dobrou as exportações de carne bovina para a China a partir da Austrália, disse o executivo. A companhia brasileira tem nove abatedouros na Oceania.

(Valor) (Marcela Caetano | De Greeley (Colorado))
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