Quarta-feira, 21 de Agosto de 2019
Empresas

Venda de participação em ativos no Oriente Médio no foco da BRF
São Paulo, SP, 22 de Maio de 2019 - Em busca de um sócio estratégico para ingressar no mercado de carne de frango da Arábia Saudita, a BRF pode oferecer uma participação minoritária em alguns de seus ativos no Oriente Médio, conforme apurou o Valor.

De acordo com duas fontes consultadas pela reportagem, a companhia brasileira pode envolver os negócios de distribuição que possui na região e a fábrica de alimentos que detém em Abu Dhabi, a capital dos Emirados Árabes Unidos. Procurada, a BRF não comentou.



Na prática, a operação ajudaria a companhia em duas frentes. Financeiramente, aceleraria o processo de redução do endividamento. Estrategicamente, a associação com um parceiro que esteja alinhado à política de substituição de importações da Arábia Saudita abriria caminho para a BRF se estabelecer no país como uma criadora e processadora de frango, e não apenas exportadora. Atualmente, o país é o segundo maior importador do frango produzido no Brasil. Nos mercados muçulmanos como um todo, as vendas da BRF renderam R$ 8 bilhões no ano passado.

Como forma de reduzir as importações e estimular a produção local de aves, o Estado saudita aplicou diversas restrições contra a carne de frango importada do Brasil nos últimos anos. Nesse cenário, a BRF já admitiu que precisa de um parceiro no país para produzir frango e evitar a perda de um de seus principais mercados. O objetivo da Arábia Saudita é produzir localmente 60% da demanda doméstica por frango até 2030.

Embora os valores de uma eventual associação no Oriente Médio ainda não estejam claros, a avaliação é que, caso decida vender uma participação entre 30% e 35% dos ativos de distribuição no Oriente Médio e da sua fábrica na região, a companhia poderia angariar até mais que os R$ 1,3 bilhão obtidos com a venda à americana Tyson Foods dos ativos na Tailândia e Europa. Essa foi a principal alienação do programa de desinvestimentos com o qual a BRF obteve cerca de R$ 4 bilhões.

De acordo com uma das fontes, a companhia brasileira inevitavelmente receberá dinheiro na associação, porque o investimento necessário para começar a produzir frango na Arábia Saudita não é dos mais altos, ao menos em um primeiro momento. Em contrapartida, a BRF ofereceria ao eventual sócio no Oriente Médio um conjunto de ativos no qual investiu centenas de milhões de dólares para reunir.

Na área de distribuição, a BRF é dominante nos Emirados Árabes Unidos, Omã, Kuwait e Catar. A posição da empresa nessa área foi construída entre 2012 e 2016, com as aquisições das empresas que distribuiam produtos da marca Sadia na região: Federal Foods, Al Khan Foods, Alyasra Food e QNIE.

Para adquirir esses ativos, a BRF gastou (incluindo a assunção de dívidas) cerca de US$ 430 milhões. Na fábrica de Abu Dhabi, inaugurada em 2014, a empresa investiu US$ 160 milhões. Posteriormente, a unidade teve sua capacidade ampliada em cerca de 40% (o valor do investimento não foi divulgado na ocasião).

Nesse processo de ampliação das atividades no Oriente Médio, portanto, a BRF investiu ao menos US$ 590 milhões - o equivalente a quase R$ 2,4 bilhões considerando a cotação de ontem - nos ativos que podem ser oferecidos a um sócio na região.

Esse cálculo desconsidera a produtora de carne de frango turca Banvit, adquirida por cerca de US$ 340 milhões no início de 2017. A empresa foi comprada pela BRF em sociedade com o fundo soberano do Catar (QIA). Nas tratativas para atrair um parceiro que abra as portas da Arábia Saudita, é difícil que a Banvit seja incluída. As relações diplomáticas entre os sauditas e os catarianos estão estremecidas e o abastecimento de carne de frango é assunto de Estado para os sauditas.

Diante desse processo, há outros candidatos possíveis e mais alinhados ao governo saudita. Um deles é a gestora Saudi Agriculture and Livestock Investment Company (Salic), que no passado recente demonstrou interesse pelas operações de frango halal (voltados ao mercado muçulmano) da BRF. A Salic pertence ao reino saudita e, no Brasil, é a maior acionista da Minerva Foods, produtora de carne bovina.

Em entrevista concedida ao Valor em março, Patricio Rohner, executivo que comanda as operações internacionais da BRF, disse que já havia escolhido as empresas com as quais deseja se associar para ingressar no mercado saudita. O executivo não revelou nomes, mas afirmou que um acordo poderia ocorrer no curto prazo - de seis meses e um ano.

(Valor) (Luiz Henrique Mendes)
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