Quarta-feira, 29 de Janeiro de 2020
Mercado Externo

Peste suína turva projeções para importação chinesa de soja
São Paulo, SP, 03 de Julho de 2019 - O real alcance da epidemia de peste suína africana na China e seus reflexos sobre a demanda por ração tornaram as projeções sobre as importações de soja do país asiático perguntas de um milhão de dólares. Os cenários traçados apontam para quedas neste e no próximo ano, mas o tamanho do tombo, e como ele será "dividido" entre Brasil e EUA, suscitam muitas dúvidas. A China responde por mais da metade das importações mundiais de soja, e Brasil e EUA encabeçam as exportações.

Como informou o Valor, há sinais de que Pequim está minimizando o impacto da doença. Estimativas sugerem redução de 50% da produção chinesa de carne suína, duas vez mais do que indicam as autoridades. Mas, no mercado, há até quem acredite que o problema pode não ser tão grande assim e que a tendência de aumento dos embarques brasileiros do grão para o país asiático será logo retomada.

Em 2018, a China importou 88 milhões de toneladas de soja, 8,3% menos que em 2017. Do total, 68,6 milhões de toneladas foram compradas do Brasil, conforme dados do Ministério da Agricultura brasileiro. Nas contas da Abiove, que representa as indústrias exportadoras, neste ano a retração será maior. Por causa da China, que absorveu 80% dos embarques do ano passado, e do encolhimento dos estoques, a entidade prevê que as exportações recuarão 18,5% em 2019, para 68,1 milhões de toneladas. Segundo a Abiove, a receita total das vendas cairá 26,1%, para US$ 24,5 bilhões.

Esse valor considera que, em média, cada tonelada sairá do país por US$ 360. Em junho, porém, a média ficou em US$ 342,3, com quedas de 1,4% em relação a maio e de 21,1% na comparação com junho de 2018.

Em consequência da peste suína, o banco holandês Rabobank projeta que as importações de soja da China cairão para 84 milhões de toneladas. Conforme o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), serão 85 milhões. "Se a situação da peste piorar, as importações chinesas poderão cair para 80 milhões de toneladas", diz Victor Ikeda, analista do Rabobank. Segundo ele, a queda esperada no consumo de ração no país é de 13%, mas poderá ser menor em razão da migração do consumo doméstico para outras proteínas.

Essa migração é outra incógnita, já que estimativas mais certeiras dependem da real redução da produção chinesa de carne suína. O Rabobank calcula que a necessidade de soja para a produção de ração para suínos na China deverá passar de 42,2 milhões de toneladas, em 2018, para 31,8 milhões em 2019. Para a produção de ração para frangos, o volume deverá subir de 31,9 milhões para 36,8 milhões de toneladas.

O que também deverá amenizar a diminuição do consumo é o maior uso de farelo de soja na ração destinada à aquicultura. "É provável que eles elevem o percentual de farelo de soja na ração para peixes de 20% em 2018 para 24% em 2019", afirma Ikeda, o que elevaria o consumo de farelo de soja para a aquicultura de 4,4 milhões de toneladas para 5,6 milhões. "No que se refere à soja em grão, o aumento será de 5,7 milhões para 7,1 milhões de toneladas", calcula.

Guilherme Bellotti, analista do Itaú BBA, pondera, contudo, que também há dúvidas sobre a profundidade da queda do consumo de carne suína na China, que poderá ser maior que a da produção. "Em 2007, houve o problema da orelha azul, que reduziu a demanda por carne suína em cerca de 7% e gerou um aumento da demanda por carnes bovina e de frango em 8% e 10%, respectivamente", diz.

Para Bellotti, neste ano a produção de carne suína na China deverá cair cerca de 20%, ao passo que a de carne de frango poderá aumentar 10%. Seguindo esse raciocínio, a redução da demanda por soja ficaria em torno de 13 milhões de toneladas apenas neste ano. "Mas pode ser que a gente tenha uma aceleração das importações chinesas para recompor parte dos estoques".

No longo prazo, contudo, as perspectivas continuam positivas. "Quando o problema da peste for resolvido, a suinocultura chinesa tende a voltar a crescer de forma mais sólida, migrando de uma produção de fundo de quintal para uma produção de maior escala, que acaba utilizando muito mais ração no sistema de produção", observa Bellotti.

Mas, em tempos de guerra comercial entre Washington e Pequim, fica a dúvida sobre se o Brasil saberá aproveitar a chance para ocupar ainda mais espaço no mercado chinês. Recentemente, em evento no interior de São Paulo, Paul Fribourg, CEO e presidente do conselho da trading Continental Grain Company (CGC), questionou esse ponto. "Conseguiremos fornecer e estabelecer relações de longo prazo com os chineses? É uma oportunidade única para que o Brasil se torne fornecedor de longo prazo. Se não fizermos parcerias, podemos perder mercado", disse.

Nesse contexto, os EUA perdem competitividade em razão da guerra comercial, mas veem a possibilidade de ganhar um mercado com um apetite potencial duradouro.

(Valor) (Kauanna Navarro)
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